cristiano ronaldo sente-se escravizado no manchester united. calem-se os cínicos, calem-se aqueles para quem um salário de quase seis milhões de euros por ano seria motivo de satisfação. cristiano ronaldo ganha quase seis milhões de euros por ano, mas nas plantações da georgia, carolina do sul e demais estados nostálgicos da confederação, os escravos levavam para casa cerca de dezassete milhões por ano. não de euros ou dólares, mas sim chicotadas. o paradoxo é apenas aparente. senão vejamos:
é verdade que hoje, somos todos hedonistas e como tal, preferimos mais poder de compra e subsequentemente mais consumo. queremos ser pagos em dinheiro. mas nos tempos da escravatura institucional, os escravos eram essencialmente masoquistas e preferiam receber em chicotadas (hoje em dia o fenómeno permanece de forma residual, não nos futebolistas, mas sim nos treinadores, a quem não é concedido sequer o prazer da chicotada real, tendo que se contentar com chicotadas meramente psicológicas. note-se a perda de direitos), que depositavam num banco com juros altíssimos cujo efeito, mesmo a curto prazo, era um incremento substancial do número (real e nominal) de chicotadas, não num prazo de seis meses, mas no dia seguinte.
é altura de encararmos a realidade. os campos de concentração e escravatura de hoje não se situam em charleston ou atlanta, mas sim na metropolitan borough of trafford, no distrito financeiro de madrid, em anfield road, ou junto à campanhã.
os escravos, hoje, estão muito pior que há cento e cinquenta nos. nesses tempos, ao menos podiam jogar nos sectores primário e secundário da economia (extracção e transformação de algodão) enquanto que hoje foram relegados para o sector quinário (são forçados a usar, não algodão sequer, mas fibras sintéticas, enquanto chutam bolas de couro).
cristiano ronaldo é a voz da anti escravatura moderna. proponho inclusivamente que lhe mudemos o nome, visto que o actual é tão azeiteiro e rasca, que obviamente alguém o está a forçar a usar. chamemos-lhe abraão líncolene júnior, ou martinho lutero rei o terceiro. e vamos à luta. vamos para a rua. há quem diga que o futebol é mesmo assim, mas não cristiano ronaldo. e eu cá estarei para o apoiar.