wien, cidade de música
is anyone here a composer?
coloquei os meus óculos à franz schubert e apresentei-me, em tom solene, peito aberto, mão esquerda na anca, cabeça erguida e nariz sobranceiro
i am a composer!
à minha volta, olhares e murmúrios de respeito. a massa popular presente no local abriu um túnel que me concedeu acesso à pessoa enferma. tomei-lhe o pulso e declarei, com gravidade
this man's heart rate is below forty beats per minute.
algo assustados pela hermética terminologia científico-musical, alguns plebeus perguntaram
pray forgive our ignorance, kappelmeister, but what does that mean?
olhei em paralelo infinito, como nas telenovelas, e respondi
obviously, largo molto sostenuto.
tirei do meu estojo de primeiros socorros uma batuta. estava ao lado do diapasão. comecei por marcar um andamento largo, seguido de um accelerando poco a poco, até atingir um larghetto. o enfermo moveu a cara para ambos os lados e murmurou algo em pianissimo. mantive o larghetto durante uns segundos (para evitar um choque), e depois, um andante subito. o transeunte ergueu-se, olhou sobressaltado para um círculo de pessoas divididas entre a admiração pelo quasi milagre e este vosso criado, autor do referido feito. o público sucumbiu finalmente ao êxtase que a circunstância impunha e aplaudiu de pé. retirei-me vitorioso da carruagem, mas a intensidade dos aplausos era tal que não tive outra opção senão regressar à carruagem para agradecer pela segunda, terceira, quarta, quinta vez, até que um grupo de crianças me trouxe um ramo de flores.
foi assim que conquistei o público vienense.